Andrones

A precarização do ser

Num futuro não tão remoto, ondas pandêmicas começaram a se tornar mais frequentes. Entre todas as indústrias a se beneficiar dos lockdowns mais imperativos e necessários, a produção pornográfica foi uma das que teve maior crescimento em sua demanda. O mercado para novos produtos de pornografia era vasto e propício a empreendedores criativos. Tecnologias já existentes como VR e AR combinadas com DeepFake geraram uma gama imaginativa de opções ao consumo pornográfico. Atrizes e atores viram abrir novos campos de trabalho, órfãos que estavam dos longos e constantes fechamentos de teatros e cinemas. Eram contratados para exercer a função denominada de Assistentes Sexuais Remotos. Ou na sigla em inglês; RSA, Remote Sexual Assistant. Podiam ser alocados para os triviais vídeos customizados pelos usuários com suas DeepFakesde celebridades favoritas. Ou, ainda, estarem em lives privadas onde seguiam um roteiro prévio do usuário com o rosto e o corpo de quem escolhessem entre diversos famosos. Com o tempo, modelar suas fantasias apenas com faces públicas já não satisfazia todos os clientes. Muitos reclamaram que esse detalhe prejudicava a sua suspensão da descrença. Apesar de serem rostos conhecidos, eles não lhes eram próximos ou alcançáveis facilmente. Queriam a imagem e semelhança da namorada ou namorado afastado pela quarentena. Ou de uma desconhecida fotografada na rua num dos períodos inter-pandêmicos. Também poderia ser de um banco de fotos anônimas. Logo, todas essas opções foram implementadas com sucesso e se espalhou para outras mídias não pornográfica como games e filmes interativos em serviços de streaming.

Já a utilização da VR teve as suas dificuldades de interação com atores live-action “deepfakeds”. Coisas como mãos e outros membros precisavam ser inseridos digitalmente na FPV da tecnologia. Por mais aprimorada que fosse os recursos gráficos, ainda causava desconforto e sensação de artificialidade nos usuários. A solução engenhosa foi ter um outro ator ou atriz para vicariar o usuário na sua visão em primeira pessoa. Essa função foi oficializada como RSOou Operador Sexual Remoto. E, sim, tudo que fosse visível na perspectiva do vicário era “deepfaqueado”. O que inclui explicitamente todos os membros e/ou partes íntimas. Isso impõe uma atenção adicional com espelhos. Algo que foi descurado nas primeiras sessões, gerando reclamações imediatas. Tão logo detectado o problema, as redes neurais aprenderam a reconhecer o ator sempre que sua imagem aparecesse no campo de vista do usuário. Assim, até a montagem do cenário ganhou mais liberdade; fotos dos atores poderiam agora ser colocadas em cena sem gerar inconsistências.

E quem disse que a iniciativa privada na pornografia não é imaginativa? Essa tecnologia VR live-action foi incorporada a aplicativos como o Tindere os fizeram renascer no novo mundo pandêmico. Os matches poderiam ser realizados sexualmente sem riscos para as partes envolvidas. E, em tese, os atores também não corriam perigo, pois deveriam todos da equipe de produção serem testados negativos para o vírus. Inclusive casais separados em meio aos lockdownsfaziam uso constante desse serviço.

Tudo isso era muito virtual, até que as o panorama começou a mudar numa das temporadas entre confinamentos. Os empresários que se capitalizaram com a pornografia iniciaram investimentos no ambiente real. Lançaram uma ocupação para antigos profissionais liberais que quase foram extintos pelos distanciamentos sociais obrigatórios. Chamaram o emprego de LSO ou Operador Sexual Local. Um novo nome para a mais antiga das profissões. Era prostituição só que aprimorada ao usar deepfake. E como isso era possível? Com o hackeamentode uma tecnologia militar de disfarce. Por incrível que pareça, foi a indústria pornográfica a primeira a conseguir comprá-la no mercado negro da deepweb. Ela ficou conhecida como DeepFake Mask. Uma máscara feita com polímero contaminado com nanos displays óticos. O controle desses bilhões de pixels era feito por poderosos servidores em nuvem. O que lhe dava capacidade computacional para gerir as redes neurais e reproduzir rosto e voz realísticos em alta resolução. O cliente não precisava mais imaginar a face e o timbre que desejava enquanto transava.

Logo esse pioneirismo do mercado sexual foi imitado por outros setores da atividade humana. Surgiu, então, o serviço de delivery de presença, tornando possível contratar um entregador para levar a presença do contratante onde ele não poderia ir. Como, por exemplo, um evento onde uma presença física causaria mais impacto que uma videoconferência ou live. E, se o portador fosse de confiança, a lugares inconfessáveis. Outra possibilidade era a presença ubíqua com entregadores diferentes. Todos esses recursos eram vantajosos para pessoas que temiam se expor numa pandemia. Mas o risco dos outros tinha um preço e ser Personal Delivery, como foram apelidados, passou a ser ambicionado por muitos, principalmente por aqueles sem opções no mercado de trabalho após a “quarta revolução industrial”.

No Brasil, a chamada convergência tecnologia eliminou milhões de postos de trabalho e levou número semelhante de trabalhadores não capacitados a quase indigência econômica. Algo cruelmente semelhante ao que ocorreu com os negros após a abolição. Nenhum programa de assistência social foi sequer cogitado pelos governos nos dois momentos históricos. A primeira pandemia de 2020 aconteceu concomitante a essa crise social e previdenciária. A crise sanitária foi tratada com desleixo pelo governo federal da época. E até vista como uma mitigação providencial ao peso social dos milhões de desvalidos e informais descartados pelas políticas econômica liberais.

A quarta onda acirrou uma nova polarização populacional. De um lado, os “home officers”, trabalhadores com capacitação e insumos para poderem confortavelmente exercer suas profissões confinados. Do outro, os “out officers”, todos que não tinham esse perfil requisitado pela nova conformação empresarial. A quase totalidade dos “out officers” passaram a viver em função dos “home officers”, recebiam apenas para atender as necessidades deles e possibilitar que não precisassem sair às ruas. A força economicamente ativa e relevante para o capitalismo financeiro passou a ser majoritariamente os que podiam trabalhar em casa. Eram eles os cidadãos de primeira classe e os maiores contribuintes para os cofres do governo. E como não saiam de seus espaços isolados para se arriscar a uma contaminação viral, os espaços de uso comum progressivamente foram abandonados e deixados sem manutenção. Isso aconteceu com praças, teatros, cinemas, parques, calçadas e etc. Até a limpeza pública foi sendo desativada e mantendo apenas o recolhimento em residências e condomínios.

Quanto mais esse panorama econômico se consolidava, mais o valor hora dos “personal deliverys” caía. A oferta dos corpos hospedeiros estava escalando. E os requisitos de segurança para eles, baixando. A única contrapartida para aumentar seus cachês era aceitar riscos novos e maiores.

Enquanto isso, os estúdios pornográficos perceberam que era mais barato, rápido e eficiente usar a DeepFake Mask para produzir seus VRs live-actions. Seguindo na busca de experiencias mais satisfatórias para seus clientes, iniciaram um projeto para adaptar ao funcionamento da máscara tecnologias médicas avançadas de monitoração sináptica e eletroencefalograma. Conseguiram captar as reações neuronais do ator às sensações erógenas e transmitir os impulsos ao cérebro do usuário. A ideia era revolucionária: não implantar uma sensação criada sinteticamente, mas inserir a sensação real de outra pessoa. O procedimento causou uma imersão empática quase parasitária de um ser humano sobre outro.

O sucesso alcançado mostrou que, em teoria, todos os sentidos humanos poderiam servir como sensores de ambiente. Por exemplo, para o propósito de enviar imagens de uma mente para outra, não era necessário uma câmera para captação, bastava olhos acoplados a um cérebro, captar e, depois, transmitir seus estímulos elétricos à outro.

Em 2035, essa tecnologia já estava em estágio comercial e foi usada em larga escala em atividades recreativas. Não demorou muito e os usuários deixaram de ter a noção que havia um outro ser humano na ponta oposta do seu brinquedo. Assim, a transição foi fácil para a imersão em lutas reais de MMA. A dor sentida não se refletia em danos corporais para o jogador; então tudo lhe parecia muito inofensivo. E para quem desejasse sensações mais extremas, havia transmissões de combates clandestinos na dark web com os mais diversos tipos de armas. Do delivery de sensações eróticas chegou-se à entrega em domicílio de medo e terror até a morte.

Contudo, esse ainda não seria o estado da arte da tecnologia. Em 2037, a interatividade tão aguardada foi conseguida. A máscara se tornou um capacete com agulhas hiper finas que penetravam quase indolores no crânio do hospedeiro. Elas serviam como endoeletrodos inseridos em regiões específicas do córtex cerebral. Sua função era aplicar estímulos eletroquímicos que codificavam comandos enviados pelo usuário. A princípio, só comandos motores simples era possível de serem executados. Mas as neurociências trouxeram conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro que permitiram a codificação de comandos volitivos mais complexos.

Em 2039, os militares americanos retomaram a tecnologia que lhes havia sido roubada. Só que agora estava agregada a 10 anos de aprimoramentos. Era o sonho do mercenário perfeito. Entretanto, isso era algo que já vinha salivando a boca dos militares chineses nos últimos anos. O conceito dos “andrones” tinha sido lançado. E nem o céu era mais limite.